TENDÊNCIAS MERCADO VINHOS 2022
As bebidas alcoólicas provaram ser uma das categorias de produtos mais resilientes do mundo nesta era Covid, em grande parte graças à capacidade da indústria de bebidas, em especial do vinho e bebidas espirituosas, de inovar e mudar o foco dum canal amplamente restrito ou fechado - o local - para canais mais acessíveis e globais como e-commerce.
Os desafios que esta indústria enfrenta para o próximo(s) ano(s) serão semelhantes aos enfrentados pelas bebidas alcoólicas como um todo e pelos bens de consumo em geral: manter os custos baixos enquanto persuade os consumidores a consumir; melhorar os produtos, bem como a imagem destes, à luz das crescentes exigências dos governos por um compromisso radical com a responsabilidade ambiental e social, tornando o produto relevante e apelativo para a próxima geração de consumidores com idade legal para beber.
Assim, e desde já, podem-se vislumbrar as seguintes tendências para o próximo(s) ano(s):
Vinho global levará a sério o ser “peso leve” - reduzindo o peso da embalagem de vidro e pegada ecológica
Apesar de muitos esforços nas últimas décadas, a indústria do vinho ainda não encontrou uma maneira dos consumidores descartarem o amor por uma garrafa de vidro de 75cl.
Parte do problema é que as garrafas de vidro efetivamente funcionam bem do ponto de vista do consumidor: parecem mais amigas do ambiente do que o plástico ou outros materiais, transmitem segurança ao refletir os valores como a tradição e a qualidade do vinho e ficam bem à mesa.
Pesquisas junto de consumidores indicam que cerca de 55% consideravam o vidro uma forma "sustentável", por oposição a cerca de 35% que pensavam que uma embalagem de bag-in-box seria sustentável.
Mas qual a relevância? Uma garrafa de vinho de vidro padrão, tem cerca de 500g e é responsável por 29% da pegada de carbono de um vinho, de acordo com um estudo de 2011 do Wine Institute of California.
No entanto, existem muitas garrafas de vinho com quase um quilo, situação em que o peso da embalagem na produção de carbono do vinho sobe para perto de 50%.
Uma garrafa leve reduz a reduz a pegada ecológica - em cerca de 1g de carbono por grama de vidro, dependendo da proporção de vidro reciclado usado, isto já sem falar na poupança do custo de transporte dessa mesma garrafa.
Por outro lado, retire-se a cápsula de alumínio (em Portugal pouco usual, felizmente!) e use-se uma rolha em cortiça natural (isto sem falar nos óbvios benefícios da plantação dos sobreiros) e terá um produto cuja embalagem é quase neutra em carbono, com custos de transporte mais baratos e apelativa do ponto de vista ecológico, podendo marginalmente catapultar tal e per si como argumento comercial.
Figuras influentes na indústria do vinho, como Jancis Robinson e Tim Atkin, há muito fazem campanha contra as pesadas garrafas de vinho e cada vez mais se reúne um amplo consenso em seu torno.
Crucialmente, mas não de forma inesperada, isto verifica-se agora também junto de grandes retalhistas, que por sua vez usarão o seu poder de compra (e a necessidade de cumprir suas próprias metas de redução de carbono) para que os fornecedores se comprometam com o vidro leve sempre que possível.
Mais pragmaticamente, as tensões na cadeia de abastecimento global, em termos de aumento de custos de matéria-prima, aumento dos custos de combustível e transporte e a relutância do retalhista em aumentar os custos aos consumidores, forçarão os produtores a buscar vantagens onde quer que estas estejam disponíveis aproveitando, ainda, essa sua vantagem com a transmissão da mensagem junto do consumidor final da sua preocupação ecológica.
Vinho de luxo afirmar-se-á também com as credenciais de sustentabilidade
O que significa luxo hoje? O influente Financial Times, num artigo há pouco publicado foi claro: “O luxo terá que mostrar que é sustentável para atrair os consumidores mais jovens ”. A ideia é que as marcas de luxo precisarão de descobrir como alinhar seus valores e ações com os da próxima geração de consumidores.
Na prática, isto significa comprometer-se ao máximo para agir de forma sustentável - tanto em termos humanos quanto ambientais.
O desafio das marcas de luxo em geral, e dos vinhos de luxo em particular, será fazer isso sem comprometer a qualidade do produto.
Como isso acontecerá? Em todo o mundo, os consumidores de vinho estão a diminuir o volume consumido, mas a aumentar a qualidade e o vinho de luxo é atualmente um dos principais beneficiários dessa tendência.
No entanto, com a reabertura da economia e regresso das viagens os consumidores tornar-se-ão mais discriminatórios na forma como gastam seu dinheiro e o lugar comum da qualidade e herança já não serão suficientes pelo que também estes terão de apostar no seu posicionamento no mercado face a estes valores.
O caminho dos vinhos “premium” continuará em andamento em 2022 e nos anos seguintes
Um dos aspetos positivos mais notáveis da pandemia para a indústria do vinho foi a disposição dos consumidores em transferir os valores que teriam gasto para sair e viajar para alimentos e bebidas de melhor qualidade para consumir no seu lar.
A tendência de gastar um pouco mais está, claro, connosco desde bem antes de Covid e está intimamente ligada à tendência de beber menos volume de vinho mas de melhor qualidade.
Os produtores de vinho também têm inovado e promovido suas ofertas premium com assiduidade, já que as margens de lucro desses produtos são de ordens de magnitude maiores em comparação com os vinhos de baixo preço, em grande parte graças ao impacto dos impostos de valor fixo que incidem sobre o álcool por volume, em especial nos mercados exteriores.
Três fatores vão condicionar o percurso do vinho em 2022:
- a relutância de alguns consumidores em se envolver novamente com o local e as viagens, o que reservará mais de seus orçamentos para entretenimento em casa;
- a influência crescente dos Millennials na maioria dos mercados de vinho, que têm sido os maiores impulsionadores do movimento beba menos, mas melhor; e
- um avolumar de custos na cadeia de abastecimento, combinado com a quebra de produção que a OIV estima ter reduzido os volumes de vinho em cerca de 18% no hemisfério norte, apesar de Portugal ter escapado a tal desaire, e o crescente de custos de energia, produtos secos e custos de transporte.
Vinho em lata afirmar-se-á como padrão de vinho com baixo teor de álcool e de consumo “fácil”
O vinho enlatado fez grandes avanços em 2021, tanto do ponto de vista técnico quanto de vendas, e isso continuará em 2022 e pelos anos seguintes.
No entanto, a grande inovação virá da construção de novas subcategorias de produtos em vinhos e bebidas espirituosas: bebidas em formato portátil, de dose única, com formulação de baixo teor alcoólico e muitas vezes com baixas calorias.
O crescimento contínuo dos desta categoria de bebidas, em especial no continente norte-americano, é liderada por um surto de inovação sem precedentes na categoria, e continua em curso para crescer substancialmente por anos vindouros, de acordo com as previsões de várias entidades do sector.
Os fabricantes mais atentos ao mercado já estão à procura de maneiras de aumentar sua oferta, que no momento está amplamente focada em bebidas à base de destilados, usando marcas conhecidas de uísques, runs e gins de colocação premium para impulsionar a procura do consumidor.
No caso português tal foi notório com a criação da categoria de bebida “Porto Tonic”, pronto a consumir, aliado ao surgimento no mercado da categoria de bebidas designadas por “hard seltzers”.
Eventualmente, veremos marcas famosas e com melhores sabores aplicando também este conceito a produtos de vinho premium.
A nível internacional, é expetável que os primeiros a inovar neste campo sejam os produtores de vinho espumante, especialmente as casas de Champagne, com o objetivo de estender seu alcance para o espaço com baixo teor de álcool, aliado ao serviço individual.
João Amaral
Janeiro 2022
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