vitivinícola: fundamentos, implicações e oportunidades O setor vitivinícola europeu atravessa uma fase de profunda transformação, em resposta a fatores como as alterações climáticas, as mudanças nos padrões de consumo e as crescentes incertezas dos mercados globais. Neste contexto, a Comissão Europeia apresentou em 28 de março de 2025 a proposta COM(2025) 137, que introduz alterações significativas ao quadro jurídico da Política Agrícola Comum (Reg. (UE) 2021/2115 e Reg. (UE) 1308/2013). Uma das novidades mais relevantes consiste na integração do enoturismo como intervenção financiável no âmbito das medidas setoriais do vinho. Trata-se de uma mudança de paradigma: o vinho deixa de ser tratado exclusivamente como produto agrícola e económico para passar a ser reconhecido também como bem cultural e turístico, capaz de gerar valor acrescentado e dinamizar os territórios. Fundamento jurídico e alcance da medida A proposta da Comissão altera o artigo 58.º do Reg. (UE) 2021/2115, permitindo que grupos de produtores que gerem denominações de origem protegidas (DOP) e indicações geográficas protegidas (IGP) possam candidatar-se a apoio para projetos de enoturismo. Até aqui, este tipo de iniciativas era residual e não encontrava base jurídica clara na PAC. A alteração articula-se ainda com o novo quadro das indicações geográficas estabelecido pelo Reg. (UE)
2024/1143, reforçando a ligação entre qualidade, território e experiência turística. O âmbito das ações elegíveis é alargado, incluindo o desenvolvimento de rotas de vinho, centros interpretativos, eventos culturais ligados ao vinho, plataformas digitais de reservas e outras iniciativas que permitam associar a experiência turística ao prestígio das IG. Este financiamento será enquadrado nas intervenções setoriais do vinho, com cofinanciamento europeu e nacional, devendo os Estados-Membros definir critérios específicos nos seus planos estratégicos. Implicações operacionais e estratégicas A medida representa uma inovação em política vitivinícola. Em primeiro lugar, permite diversificação de rendimentos num setor exposto à volatilidade dos preços e à incerteza climática. O enoturismo cria fluxos de receita independentes da colheita e da cotação internacional, oferecendo estabilidade às explorações vitivinícolas. Em segundo lugar, contribui para a fixação da população em meio rural, ao gerar empregos em áreas como hotelaria, gastronomia, guia turístico, eventos e serviços digitais. Em terceiro lugar, reforça a promoção internacional dos vinhos europeus: ao prolongar as campanhas de promoção em países terceiros de três para cinco anos, a Comissão cria sinergias entre turismo de experiência e consolidação de mercados de exportação. Importância e consequências futuras
A integração do enoturismo no quadro da PAC tem várias consequências estratégicas. Por um lado, reforça a identidade cultural europeia, projetando as IG vitivinícolas não apenas como selos de qualidade, mas como experiências territoriais autênticas. Por outro, estimula a convergência entre políticas agrícolas, turísticas e culturais, exigindo maior coordenação entre ministérios e autoridades regionais. Também abre portas a novos modelos de negócio para os consórcios de produtores, que passam a gerir não apenas certificação e defesa da IG, mas também projetos turísticos estruturados e financiados. No contexto macroeconômico, esta medida tem potencial para reposicionar o enoturismo europeu no mercado global diante da concorrência de destinos emergentes, como Chile, África do Sul e Austrália. A iniciativa pode consolidar a liderança da União Europeia, que atualmente responde por aproximadamente 60% da produção e do valor das exportações mundiais de vinho. Entretanto, existe o risco de que regiões já estabelecidas, como Bordéus, Douro e Toscana, concentrem a maior parte dos apoios e fluxos turísticos, tornando necessário adotar estratégias para mitigar possíveis assimetrias territoriais. Riscos e desafios Apesar do potencial identificado, a proposta apresenta riscos relevantes. O primeiro refere-se à possibilidade de acentuação das disparidades regionais entre áreas de elevada notoriedade e regiões emergentes. O segundo risco envolve a sustentabilidade ambiental, pois o crescimento descontrolado do turismo pode sobrecarregar recursos hídricos, energéticos e de mobilidade em territórios vulneráveis. O terceiro risco está relacionado à governança, uma vez que o êxito das
medidas depende da capacidade dos grupos gestores de indicações geográficas em coordenar ações com entidades de turismo, administrações locais e empresas privadas. Caso contrário, há o risco de dispersão de projetos com baixo impacto público. Oportunidades de negócio Para os operadores vitivinícolas e gestores de IG, abrem-se oportunidades concretas:
- Experiências premium: provas verticais, visitas a vinhas
históricas, “wine & food labs”, clubes exclusivos de membros ligados a IG.
- Integração digital: plataformas de reservas online, CRM
partilhado da IG, venda direta (D2C) com entrega cross-border após a visita.
- Parcerias territoriais: rotas inter-regionais, co-branding com
património cultural ou natural, itinerários temáticos (vinhas velhas, viticultura heroica).
- Economia de dados: recolha e análise de perfis de visitantes para
personalizar ofertas e fidelizar clientes.
- Financiamento híbrido: combinação de fundos PAC com fundos
regionais de turismo e investimento privado, garantindo escalabilidade e sustentabilidade. Conclusão
O reconhecimento do enoturismo como intervenção financiável no pacote do vinho da União Europeia representa uma mudança estratégica. Ao fundamentar a política vitivinícola nos pilares de qualidade, território e experiência, a Comissão Europeia possibilita que as Denominações de Origem Protegidas (DOP) e Indicações Geográficas Protegidas (IGP) se consolidem como destinos turísticos integrados, além de marcas de origem. Caso seja implementada de forma adequada, esta medida tem potencial para aumentar a competitividade do setor europeu, agregar valor às zonas rurais e promover o vinho como expressão do patrimônio cultural europeu. O êxito da iniciativa, entretanto, dependerá de governança compartilhada, sustentabilidade ambiental e mecanismos transparentes de avaliação de resultados.
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